Antes, ela lançou pela Penalux o livro de contos “No útero não existe gravidade” (dedicado “às mulheres que temiam olhar no espelho e agora fazem dele uma arma”) e participou da antologia “O dia escuro”, histórias inquietantes escritas por autoras brasileiras contemporâneas, com o conto “Paixão de santidade”, “sobre uma beata que vai chegar a conclusões muito loucas a partir da experiência religiosa dela”.
Doutora em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dia Bárbara Nobre adaptou a tese para o livro “Incêndios da alma: Maria de Araújo e os milagres do Padre Cícero: a história que o Vaticano tentou esconder”, lançado pela Planeta no ano passado. “Eu pego a história da beata Maria de Araújo, que estudei por dez anos, e coloco em ‘Boca do mundo’, há uma conexão entre os dois livros”, conta a autora, que tem as histórias de mulheres e das religiões no topo dos estudos acadêmicos.
Depois de passar por Brasília, Rio e Petrolina (PE), a autora cearense mora desde 2024 em Minas Gerais; acaba de deixar Belo Horizonte e de se mudar para Aimorés, na divisa com o Espírito Santo. “BH é uma cidade muito propícia para gente caminhar, muito arborizada, e gostei demais de frequentar as livrarias da Savassi”, contou, antes da gravação da entrevista no estúdio do Estado de Minas. Em breve, Dia Nobre voltará a Belo Horizonte para um bate-papo sobre “Boca do Mundo” na Livraria do Belas.
Encruzilhada como inspiração
“Sou de Juazeiro do Norte, mas eu saí de lá aos 22 anos, fiz minha graduação lá e depois eu rodei bastante assim. Morei no Rio Grande do Norte, em Brasília, no Rio, em São Paulo... Morei fora do Brasil. Aí fui parar no sertão de Pernambuco. Em Petrolina, bem no sertão mesmo. Visitei vários povoados durante a minha estadia lá. No vale do São Francisco, viajava muito para pequenas cidades do interior. Uma impressionou muito, no meio de uma encruzilhada. Tem uma rua que corta e aí você tem casinhas de cada lado da cruz e acabou a cidade que, na verdade, é um distrito da cidade que se chama Santa Maria da Boa Vista. É um povoado com mística própria, várias histórias interessantes. A ideia do livro nasce de uma encruzilhada. um símbolo fortíssimo dentro da mítica religiosa. É um lugar de encontros: no cristianismo, essa cruz representa o sofrimento de Cristo. Em algumas religiões pagãs, é um lugar de poder. Quando a gente pensa nas religiões de matriz afro, a encruzilhada é o lugar onde habita Exu. A primeira cena que surgiu na minha cabeça, e que está no livro, é a de uma mulher dirigindo em uma estrada na caatinga. Ela para no acostamento, enterra um negócio lá, sai, mas o carro quebra na encruzilhada e ela acaba ficando lá. É como se esse lugar a escolhesse, determinando que lá ela vai ficar. Por isso, o espaço, para mim, é muito importante: não penso como cenário. É um personagem também.”
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